Press ESC to close

Refutando TASSOS LYCURGO no Pablo Marçal

Camarada, sente-se. Pegue um café (colhido pelo proletariado, torrado pela indústria e vendido com mais-valia). O que temos aqui é um exemplo fascinante, quase laboratorial, do que chamamos de Ideologia no sentido mais puro e marxista da palavra: um conjunto de ideias que serve para mascarar a realidade material e manter a dominação de uma classe sobre a outra.

O Dr. Tassos Lycurgo, com toda a sua eloquência e credenciais acadêmicas, atua aqui como um perfeito intelectual orgânico da burguesia (usando um termo de Gramsci). Ele usa a filosofia para justificar o misticismo e o conservadorismo, afastando o ouvinte da compreensão concreta da história.

Vamos desmembrar essa “conversa de bar” com o bisturi do Materialismo Histórico Dialético. Prepare-se, porque a acidez aqui é necessária para dissolver tanta mistificação.


1. A Música como “Realidade Primeira” (Idealismo Platônico)

O que foi dito (00:32 – 01:24):
Tassos afirma que a música é superior porque “não imita nada”, é a “própria realidade” e uma “realidade primeira”.

A Crítica Materialista:
Isso é Idealismo puro, bebendo de Platão, ignorando a materialidade. Para o materialismo histórico, nada paira no ar. A música não é uma entidade mágica que desce do céu.

     

      • A Realidade: A música é produto do trabalho humano sobre a matéria (a madeira do violão, o couro do pandeiro, a tecnologia do som). Mais que isso: a música é parte da superestrutura. Ela reflete as condições materiais de uma época.

      • O Erro: Dizer que a música é “a realidade primeira” é inverter o mundo. A realidade primeira é a produção da vida: comer, beber, morar, vestir. A música surge depois que o ser humano resolveu suas necessidades básicas e teve tempo para criar estética. Tassos tenta criar uma metafísica onde só existe física e história.

    2. O Ataque a Paulo Freire e a “Lógica Satânica”

    O que foi dito (03:33 – 04:01):
    Afirma-se que Paulo Freire destruiu a educação ao criar uma oposição “aluno vs. professor” baseada na lógica de “oprimido e opressor”, chamando isso de “lógica satânica do marxismo ideológico”.

    A Crítica Materialista:
    Aqui a desonestidade intelectual (ou cegueira ideológica) atinge o pico.

       

        • Não é invenção, é Constatação: O marxismo (e Freire) não inventou a luta de classes ou a opressão; nós a diagnosticamos. Dizer que reconhecer a existência de opressores e oprimidos é “satânico” é como dizer que um médico é “malvado” por diagnosticar um câncer. O câncer (a exploração) já estava lá; o médico (o materialista) apenas apontou para ele para tentar curar.

        • Educação Bancária: Freire criticava a educação que domestica o trabalhador para ele ser dócil ao capital. Tassos, ao demonizar Freire, defende implicitamente que a educação deve ser domesticadora. Ele quer uma educação “neutra” — mas em uma sociedade dividida em classes, não existe neutralidade. Ou você educa para a libertação, ou educa para a submissão. Tassos escolheu a submissão e chamou a libertação de “Satanás”. Clássica tática do medo.

      3. “A Sociedade é de Quem Produz”

      O que foi dito (04:19):
      “A sociedade é de quem produz.”

      A Crítica Materialista:
      Essa frase é uma ironia deliciosa. Se levássemos essa frase a sério, Tassos seria comunista.

         

          • Quem produz? No capitalismo, quem produz a riqueza é o trabalhador, o proletariado. É o pedreiro, o operário, o entregador, o professor.

          • A Inversão: Porém, no contexto do vídeo, quando eles dizem “quem produz”, eles estão se referindo aos “empreendedores”, aos donos do capital.

          • A Realidade: A burguesia não produz; ela se apropria do que foi produzido pelo trabalhador (mais-valia). Eles estão reivindicando a sociedade para a classe parasita (que vive do trabalho alheio), enquanto usam a retórica do trabalho. O materialismo histórico expõe que a sociedade hoje é controlada pela burguesia, mas deveria pertencer, de fato, a quem produz: a classe trabalhadora.

        4. O Bom, o Belo e o Verdadeiro (Estética Divina vs. Histórica)

        O que foi dito (06:02 – 06:49):
        Tassos diz que a arte genuína vem de Deus (o Bom, Belo e Verdadeiro) e que o mundo moderno deturpa isso com arte “feia, má e falsa”.

        A Crítica Materialista:
        Isso é uma tentativa de eternizar valores burgueses ou medievais como se fossem “divinos”.

           

            • Estética é História: O que é “belo” muda conforme a história e a classe social dominante. O belo para um aristocrata do século XVIII é diferente do belo para um operário do século XXI.

            • Alienação: Ao dizer que a beleza vem de Deus, Tassos aliena o artista. Ele retira do ser humano a capacidade de criar e julgar sua própria obra, submetendo-a a uma “regra divina” (que, convenientemente, é interpretada por teólogos conservadores como ele). Ele usa a estética para impor uma moralidade conservadora: “se a arte questiona minha visão de mundo, ela é feia e satânica”.

          5. A Fé Racional e as “Ideologias Satânicas”

          O que foi dito (07:25 – 08:38):
          Ele tenta provar Deus pela razão (ciência/história) e classifica feminismo, ambientalismo (veganismo) e movimento LGBT como “ideologias de índole satânica”.

          A Crítica Materialista:
          Aqui ele fecha o caixão da análise crítica.

             

              • Falsa Racionalidade: Tassos tenta usar ferramentas da razão (ciência) para validar o irracional (fé). O materialismo dialético entende a religião como um fenômeno social e histórico (muitas vezes um “suspiro da criatura oprimida”), mas jamais como uma verdade científica.

              • O Medo da Mudança: Chamar feminismo, movimento LGBT e outros de “satânicos” é a reação defensiva da estrutura patriarcal.

                   

                    • A Família Burguesa: O capitalismo depende da família nuclear tradicional para a transmissão de propriedade privada e reprodução de mão de obra barata (a mulher cuidando da casa de graça).

                    • A Ameaça: O feminismo e o movimento LGBT desafiam essa estrutura de propriedade e reprodução social. Tassos não tem argumentos materiais contra eles, então recorre ao espantalho teológico: “É do Diabo”. Isso não é argumento, é pânico moral para proteger o status quo.


              Resumo da Ópera (ou do Vídeo)

              O que vemos na transcrição não é uma análise da realidade, é uma teologia política.

                 

                  1. Ele nega a História: Transforma conflitos sociais reais (luta de classes, opressão de gênero) em uma batalha espiritual imaginária (Deus vs. Satanás).

                  1. Ele naturaliza a Opressão: Ao atacar Paulo Freire, ele defende que a educação não deve questionar a realidade, apenas perpetuá-la.

                  1. Ele é Idealista: Coloca as ideias (Deus, Beleza, Música) como criadoras da realidade, quando na verdade é a realidade material (trabalho, economia, sociedade) que cria essas ideias.

                Tassos fala bonito, usa termos gregos e posa de racional, mas seu discurso serve a um único senhor: a manutenção da ordem social vigente, onde uns poucos mandam (e dizem que é vontade de Deus) e a maioria obedece. O Materialismo Histórico Dialético existe justamente para que não sejamos enganados por essa “fumaça sagrada”.

                Renan Silva

                Renan Silva é Bacharel e Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Pará, especialista em Ensino da Geografia, Geografia Regional Brasileira e Educação Ambiental, professor efetivo da Secretaria de Educação do Pará e pesquisador dedicado ao estudo das relações entre linguagem, ideologia e poder. Sua atuação parte de uma abordagem marxista e materialista histórico-dialética, voltada à compreensão de como o discurso participa da manutenção das estruturas sociais e econômicas do capitalismo. Criador do projeto Por Trás do Discurso, Renan propõe análises críticas das falas e narrativas de figuras públicas — políticos, influenciadores, pastores e empresários — com o objetivo de revelar os interesses e contradições que se escondem sob a aparência de neutralidade. Seu trabalho busca transformar a crítica em uma ferramenta de emancipação: compreender o discurso não apenas como comunicação, mas como prática social que forma consciências, naturaliza desigualdades e pode, quando desvelada, abrir caminhos para novas formas de pensar e agir coletivamente.

                Deixe um comentário

                O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *